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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olá, como estás!?

Tomaste este caminho porque quiseste; disse-te em tempos, quando não eras ainda minha mulher e o tempo se assemelhava a algo imenso e inatingivel. Volvidos tantos anos, amor, repito-te tais palavras num tom outro. Sorris-me então, ligeira, ensaiando um esgar: Tomámo-lo porque o quisemos; rematas, troçista e decidida.
Ainda hoje, ao rasgarmos olhares na penumbra do cio, resistem, perenes, tais palavras, outrora indecisas. Agora, lobrigando o fim que sonhamos protelado, reencantamo-nos no pulsar dos gestos simples e incertos, como incerto e delicado fora o nosso começo...

terça-feira, 16 de março de 2010

Em fuga

- Saltei aquela parte dos beijos e das juras de amor eterno; tu também, na tua fleuma quase britânica confessavas-me, tartamudeando, que o amor era uma ficção, uma ausência de real, que estávamos juntos por... porque...

- Porque nos dá jeito, Isabel; depois ria-me, ríamo-nos do nosso cinismo, de um certo charme profilático, distintos... mas o teu olhar não sabia mentir e, por vezes, ocorria-me ser como que, atravessado por ele, como numa explosão de despeito e desvelo. Era sincero, Isabel, eras honesta, apesar da ficção, do look snob, da reprodução ad eternum de um estilo.

Mas o teu amor por mim acontecia, agora sei-o bem!

Depois mudaste, Isabel. Quando aquele beijo sem promessa se esvaiu, olhaste-me como igual, émulo sombrio da tua alma; aquele ser imperfeito que c(que)rias poder amar, já lá não estava... foi naquele lapso de tempo que tudo mudou, agora sei-o bem...!

Sei que não continuaríamos os mesmos... sei-te agora com homem, casa e filhos; será que ainda queres saber de mim...? Encontrar-me-ás junto à árvore que não plantei, com o livro que não escrevi. Quem sabe aí tudo desapareça... eu e tu, num qualquer fim de tarde sem sentido.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Noite

Ele olhou para ela; ela não olhou para ele! Ele aproximou-se, cauteloso e prudente, no rosto o fácies da credulidade. Ela, sem se afastar, distrai-se no olhar e ajeita o cabelo num gesto pretensamente ocasional.

Sobre o balcão daquele bar, denso e ruidoso, encenam-se cem danças de sedução e de recusa; os homens parecem bonecos articulados movidos pelo desejo e pelo calor do contacto. Elas dir-se-iam combinadas num jogo cruel de negação.

No homem, a natureza impiedosa leva-o a pagar copos sobre copos; neles pontuam centilitros de luxúria recalcada; a mulher aceita e recusa numa complexa diatribe circular.

Atrás do balcão, um homem e uma olhar entrechocam olhares de riso indisfarçável; - sai mais uma...

Eles, um a um recuam nas intenções (o orgulho é um amigo tardio), mas logo um sorriso de ocasião e um gemido reprimido fá-los reocupar posições de combate; nos seus gestos largos e desajeitados tentam resgatar um meneio de aceitação à fêmea distraída. Elas entreolham-se, parecendo competir pela quantidade de atenção prestada; passamos à 2ª fase: - a mulher transita de dominadora passiva a entidade provida de vontade (quantos mais melhor). Eles disputam tudo o que se assemelhe a um espelho ou mero reflector baço e conspurcado; desmultiplicam-se na renovação dos cartões de consumo. No primeiro piso, um qualquer empresário da noite faz contas a uma noite bem "cifrada".

Cá em baixo já não se dança; a pista está escorregadia, as pernas bamboleantes e o espírito entorpecido; aquela loira tem três zombies em seu redor; o homem perde a compustura e já não distingue o copo que pagou para si do copo que pagou para ela, para elas; !hic!

Entrementes,elas descolam-se do balcão e recolhem casacos, malas, négligées; eles tomam gradual consciência da robustez dos cartões e desatam num corropio de visas, multibancos... "eu tenho o cartão da casa", berra um mais confiante, logo demovido pela enormidade do homem-porta, 90kgs de madeira firme e torneada.

Delas, nem sombra. Deles, o desespero... a desesperança... no exterior os copos de plástico somam-se às bolsas de regurgitado que ocupam as imediações do estabelecimento nocturno. O homem-porta ri-se e acena a duas raparigas que entram num táxi; eles ensaiam desasados rituais de iniciação (uma cabeça partida, uma labio lancetado; vagos sorrisos carpidos na amarga natureza de ser macho).

Enquanto isso, algures rodeados pelas gorduras e despojos de uma banca de cachorros um rapaz e uma rapariga entrelaçam-se enlevados e contemplam o rescaldo da noite feita manhã com a estranheza desafiante de uma outra dimensão. Parecem felizes...